quarta-feira, 27 de abril de 2011

Um amor de inverno

Eram por volta das oito horas da noite daquele domingo de páscoa quando Samara Still resolveu cair fóra de uma vez por todas da vida de Júlio Rodrigues.Ela juntou suas coisas e partiu em uma motocicleta emprestada de alguém que não aguentava mais vê-la sendo traída por quase cinco anos.
Júlio chegou em sua casa exatamente às 21:30h como havia prometido à Samara, depois das comemorações pela conquista do campeonato de seu amado time de futebol naquela tarde ensolarada de outono.Ele logo percebeu que havia algo de errado quando não encontrou nenhuma peça de roupa de sua companheira espalhada pelo quarto como era comum desde que ela veio morar com ele.Quando viu que a parte de seu guarda-roupas destinada à ela estava vazia resolveu ligar para o seu celular, que como sempre estava desligado.Não era a primeira vez que ela partira sem deixar ao menos um bilhete e por isso mesmo ele não se preocupou.Comeu as sobras de uma pizza que encontrou na geladeira e foi dormir ainda um pouco embriagado.
No dia seguinte ele acordou antes do amanhecer.Pegou um rosto lavado em sua velha galeria e saiu para trabalhar.Chegou em seu escritório de contabilidade, cumprimentou a sua secretária Margô e fechou a porta de sua sala com o pé direito antes de se ajeitar confortavelmente em sua cadeira giratória.Ligou o rádio em sua estação preferida, em que por coincidência tocava aquela antiga canção dos Doors:

"Come with me dance, my dear
 Winter's so cold this year
 And you are so warm
 My wintertime love to be"

Ele sorriu e enquanto ligava seu computador começou à rir de si mesmo pensando em mais esta piada do absurdo americano.
Um pouco antes do meio-dia Margô bateu em sua porta e perguntou se poderia sair para almoçar  mais cedo porque precisava passar no banco antes de voltar ao trabalho.Ele olhou bem para as suas roupas e depois de dizer "sim" ficou se perguntando onde estava com a cabeça quando contratou uma gótica como secretária.Só poderia ter sido mesmo por causa daquela bunda espetacular que chamava a atenção por onde quer que ela passasse.Aquela bunda que tantas discussões gerou entre ele e Samara por ciúmes ou inveja da parte dela, que com sua bunda magrinha sempre o acusava de traições.Embora ele só tenha provado Margô em uma confraternização de fim de ano de sua pequena empresa, quando já bastante bêbado a agarrou no banheiro do restaurante em que todos estavam comemorando o final de um ano muito bom para suas finanças.E ele só se deu conta de com quem estava transando quando ela disse:
-Ai chefe, vou gozar!
Mesmo assim, Margô nunca tentou se aproveitar com algum tipo de chantagem deste deslize de seu patrão.Ambos sempre agiram como se nada tivesse acontecido.Parece até que o respeito entre eles aumentou consideravelmente depois disto, pois as piadinhas de cunho sexual até então bastante comuns cessaram de vez.

À noite ele voltou para casa depois de um dia de muito trabalho.Era a última semana para entrega das declarações anuais de imposto de renda e ainda haviam muitas para serem concluídas.
Ele notou que Samara ainda não havia voltado ou sequer dado sinal de vida.Nenhum bilhete ou ligação na secretária-eletrônica.Vasculhou toda a casa, cômodo por cômodo, e de fato não encontrou nenhum objeto pessoal dela.Foi então que ele se deu conta do acontecido : teria mesmo Samara desta vez, o abandonado em definitivo depois de quase cinco anos de idas e vindas?
Ela já havia saído de casa várias vezes mas sempre deixava uma peça de roupa, uma foto, um documento, qualquer coisa que pudesse ser usado como pretexto para voltar para buscar, e de quebra tentar uma reconciliação.
Resolveu então telefonar para alguns parentes dela, porém ninguém sabia de nada.Diante disto, tomou duas doses de conhaque e foi dormir.

No dia seguinte quando chegou em seu escritório, pediu Margô em casamento.

segunda-feira, 25 de abril de 2011

Nas entrelinhas do silêncio ela disse "não"...

Nas entrelinhas do silêncio muitas coisas são ditas sem que nenhuma palavra seja pronunciada.

Aquilo que ninguém lê
Está escrito em todos os lugares

Nas pichações pela cidade & nos museus ignorados
Nas bibliotecas empoeiradas & nos shoppings lotados
Nos sorrisos amarelos e nas lágrimas vermelhas
Nas crianças abandonadas & nos adolescentes mimados
Nos mau-tratos aos animais & aos idosos
Nos OVNIs & nos OSNIs
Nos corações partidos & nas mentes fechadas
Nas bocas sem dentes & nos estômagos vazios
Na cultura descartada & no lixo programado
Nas civilizações massacradas & nos impérios luxuosos

Eu prefiro ficar à margem da sociedade que me desdenha & me é indiferente, vil e ardilosa...

quinta-feira, 14 de abril de 2011

Provincianos & Pós-modernos

Já faziam muitos meses que Joelson Bruckfell queria convidar Nádia Romanoff para sair.Ele a conheceu na festa do 28° aniversário de um amigo em comum.E embora ela não tenha lhe dado mais atenção do que às demais pessoas que dividiam a mesma mesa daquele pub estilo irlândes, naquela noite ele achou ter encontrado a mulher da sua vida.
Romanoff era uma artista plástica de talento duvidoso de 25 anos que acabara de se formar e trabalhava como professora em uma escola de ensino de 1° grau.Era bonita, comunicativa e pintava seus cabelos de azul.
Bruckfell era um músico amador que ganhava a vida como garçom em uma churrascaria de 5ª categoria na zona sul da cidade.Já beirando os 30 anos, nunca foi do tipo popular entre as mulheres.Mas era esforçado e um romântico incurável.
Uma noite, depois de seu expediente, ele passou para tomar uma cerveja em um bar à caminho de sua casa.Era um desses botecos nos arredores de uma universidade bastante frequentado por estudantes.Enquanto solitariamente tomava pequenos góles ele tentava paquerar alguma garota à distância, quando reconheceu Nádia na outra ponta do balcão.Ela estava acompanhada de duas amigas e todas riam alto enquanto sussurravam entre si.Ao perceber as duas se ausentaram por um instante, provavelmente para irem ao banheiro, ele se aproximou dela todo sorridente:
-Oi, tudo bem?Lembra de mim?Nos conhecemos no aniversário do Alfredo à uns 2 meses atrás!
Ela já bastante embriagada ficou olhando para ele um tanto indiferente até responder:
-Hummmm!Acho que sim!Mas qual é o seu nome mesmo?
-Joelson!
-Ah, sim!É verdade!Me lembro de você!Tudo bem?
-Tudo!Melhor agora!Está sózinha?
-Não!Minhas amigas foram fazer xixi!
Ela começou à gargalhar sem parar e ele percebendo o quanto ela estava bêbada aproveitou a oportunidade para lhe pedir o mínimo:
-Você poderia me passar seu número de telefone para não perdermos contato?
-Claro!Anote aí!
Enquanto ele anotava as amigas dela voltaram e ele achou melhor se despedir:
-Ok, então!Nos falamos, Nádia!Se cuide!
-Até mais!
Assim que ele se afastou, uma de suas amigas perguntou para ela:
-Quem é esse cara?
-Sei lá!Ele disse que nos conhecemos em algum lugar!Mas não me lembro mesmo!

Alguns dias depois ele criou coragem e enviou a seguinte mensagem de seu celular para o dela:
"Olá Nádia, faz muito tempo que quero lhe convidar para sair comigo!E agora criei coragem!Vc estaria disponível na próxima sexta-feira? Beijos"
No que ela respondeu de imediato com outro torpedo:
"Quem é você?"
Sem pensar duas vezes, ele escreveu:
"Alguém que a ama"
E ela:
"Se for algum tipo de brincadeira, não tem graça nenhuma!"
Ele tratou de acalmá-la:
"Eu não brincaria com seus sentimentos.Que tal nos encontrarmos em algum lugar e conversarmos melhor?"
Ela pensou um pouco, mas não resistiu a sua própria curiosidade:
"Sabe onde é o Ashley Pub?Me encontre lá no balcão às 21h de sexta!"
Ele respondeu radiante:
"Estarei lá, amor!"

No dia combinado ela chegou para o encontro meia hora antes, sentou-se em uma das banquetas, pediu uma cerveja e ficou esperando por quem ela imaginava ser a pessoa das mensagens.Uns vinte minutos depois ele chegou e foi falar com ela:
-Oi Nádia!Tudo bem?
Ela sem se lembrar quem ele era, respondeu incomodada:
-Oi!
-Posso me sentar nesta banqueta em que está a sua bolsa?
Desculpe, mas estou esperando uma pessoa!
Ele sorrindo:
-Quem seria?
-Uma amiga!
-Sei!
-Cara!É uma coisa particular!O bar está cheio!Vá dar em cima de outra, ok?
-Não seria um encontro, seria?
-Sim, é um encontro!Pode me deixar em paz agora?
-Claro!Mas antes quero lhe mostrar uma coisa!
Ele pegou seu celular e lhe mostrou a última mensagem que ela lhe enviou marcando o encontro.Ela leu e furiosa gritou:
-Seu idiota!Quem é você?Como conseguiu meu número?
-Você me deu na última vez que nos encontramos!
-Cara, nunca te vi antes!
Ela pegou sua bolsa e saiu andando apressada por entre as pessoas que já lotavam o bar, falando baixinho para si mesma:
-Eu deveria saber que era bom demais pra ser verdade!Como fui achar que era a Sandra!Não adianta!Ela nunca vai sair do armário!...

Grito de Guerra dos Ébrios Trovadores Urbanos

Eu grito,
Você grita:
Queremos mais birita!
Assim qualquer uma fica mais bonita...!

quarta-feira, 6 de abril de 2011

06 de Abril

Bem, o tempo passa depressa e os dias me escapam por entre os dedos
Meu coração ainda busca algum tipo de consolação
Mas a sinceridade sempre foi meu maior defeito
E o amor às vezes mais parece uma maldição

Trocas de favores sem nenhuma pretenção
Ela disse que não trairia a sua maior convicção
Assim ela sairia livre de mais uma decepção
E eu mais uma vez fui pré-julgado como o grande vilão

Alguns diriam que eu deveria ter tentado impressioná-la com algum tipo de má intenção camuflada de brilhantes
Mas o que eles entendem de poesia?
O negócio deles resume-se à carros incrementados e música de gosto duvidoso
Será que eles conseguem o que desejam desta maneira vazia ou tudo hoje em dia se resume à hipocrisia

Cá estou eu de volta à estaca zero
Dizem que eu deveria aprender com meus erros
Mas e quando você não acredita que cometeu erro algum?
Devo esquecer ou devo esperar abraçado à uma garrafa de rum?