segunda-feira, 14 de março de 2011

Flores Murchas (ou A Enésima Noite De Wagner Brushenko)

Ela, nua, se despediu friamente
Foi embora pra nunca mais voltar, subitamente...
Não levou nem mesmo a roupa do corpo, descrente...
Não queria mais nada que lembrasse aquele indecente...

Ele ficou ali quieto...indiferente
Até dormir no sofá, apenas na companhia de uma televisão desligada...
Acordou faminto, mas só se levantou para urinar quando já não aguentava mais segurar
Acendeu um dos cigarros dela, mas o apagou assim que lembrou que não fumava há anos...

Saiu para respirar ar puro em uma cidade impura
Mesmo os subúrbios já não transmitem mais a segurança de outrora
Começou à se lembrar de todas as mulheres que haviam passado pela sua vida de solteirão convicto
Desde a menininha ruiva da pré-escola até a francesa que não falava português...como era mesmo o nome dela?...Aurora!

Qual seria o final de sua história? ele pensou de repente!
Morreria sózinho em casa e só descobririam seu corpo em decomposição quando os vizinhos sentissem o odor da sua podridão?

Passou em frente à uma casa de prostituição mas relutante, não entrou desta vez...
Seu problema nunca foi sexual!Mas de compatibilidade de almas!Embora um belo corpo nú sempre o atraía bastante...e o traía também, a si mesmo!
Malditos hormônios em ebulição permante...!

Não achava que a solução estivesse em um banco de bar, então comprou uma garrafa de vinho chileno e voltou para casa devagar sentindo a brisa da noite passar

Seus amigos todos já haviam morrido ou se casado
O que pra ele era a mesma coisa, coitados!

Ouvir música cubana era o que de melhor ele tinha para fazer na solidão de sua casa confortável e espaçosa
De sua varanda observava tudo que se passava na vizinhança tranquila
Nunca houve ali um assassinato ou um assalto sequer
Somente seus fantasmas à lhe assombrar
Quem lhe déra ter uma amiga para desabafar!

Bem, ainda podia assistir a um bom filme europeu ou de algum cineasta independente americano...
Só não gostava dos violentos filmes nacionais atuais!
Talvez um Woody Allen dos anos 80 seria uma boa opção: rir da sua própria desgraça sempre lhe deu algum tipo de conforto!
Mas ele não sabia mesmo era como se comunicar com as pessoas que lhe eram caras!
Ter tido um filho com alguma de suas ex-namoradas poderia tê-lo livrado da solidão...ou não?!?
Hã!...Já era tarde pra arrependimentos!

Escrever poderia ser a solução...
Então ele começou:
"Quando eu saí de dentro da escuridão do cinema para a claridade do dia..."
(Ouve-se "Stay Gold" de Stevie Wonder)
-Não!Triste demais!Vou acabar cometendo suicídio se ouvir esta música de novo!Além do mais está parecendo plágio (e é mesmo) de algum filme de Francis Ford Coppola para adolescentes de bom gosto ("The Outsiders")!Um portentoso mingau!
Melhor começar assim:
"Quando eu saí de dentro da escuridão de um boteco para a claridade do dia...
(Ouve-se "Brown Sugar" dos Rolling Stones)...
E o cara vai tomar o seu café da manhã numa panificadora bem chique do centro da cidade..."

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